Ouro em Asanaguão (Asangaon)

Casa-torre surge...

Casa-torre surge…

A história do “achamento” desta estrutura arqueológica é quase tão interessante como a própria ruína. Trata-se tão somente do melhor e mais valioso exemplo de uma casa-torre na Índia e muito provavelmente em todo o Oriente onde subsistem marcas da presença portuguesa. Partimos da nossa base em Manorá a 4 de Setembro de 2013 apenas sabendo que algures na aldeia ou perto da aldeia de Asangaon existiam umas ruínas de provável origem portuguesa. A nossa experiência – especialmente a do Saurabh – informava-nos que era quase sempre mais produtivo perguntar informações às pessoas mais velhas em cada aldeia ao longo do nosso roteiro. E assim fez Saurabh, mal nos apercebemos que estávamos na zona central da aldeia de Asangaon. Perguntou do volante em marata a uma senhora de idade que hesitou em responder. Mas o Saurabh completou a pergunta com uma pequena achega: “Somos estudantes de história de Pune e estamos a fazer um trabalho para a universidade”. Bastou para desencadear um reacção.

...por entre a vegetação

…por entre a vegetação…

A mulher confirmou a existência de uma ruína e chamou outra pessoa de idade. Emergiu então um senhor ainda mais velho e com óculos de fundo-de-garrafa. Saurabh voltou à carga: “ruínas pequeninas e modestas de uma estrutura quadrada…” O homem põs um ar pensativo e olhou melhor para nós e para o nosso carro. Hesitou. A mulher disee-lhe então qualquer coisa e o homem acenou, entrou em casa e saiu novamente com um boné enfiado na careca. “Chaló”, Vamos! Pelo caminho, que nos conduzia para fora da aldeia e para uma zona de várzeas, Saurabh disse-me baixinho em inglês: “Estamos com sorte, as ruínas são na propriedade dele”.

A certa altura virámos e entrámos num valado com zonas alagadas de ambos os lados de um estradão de terra. Ao fundo no horizonte a central termo-nuclear de Tarapur. Uma silhueta, alta e possante, começou a se desenhar do nosso lado direito, por entre o verde luxuriante da monção. Saímos do carro a correr. Não consegui conter as exclamações e interjeições: “este é o melhor exemplo até agora! Sorte grande, Saurabh!”. Saurabh ria-se e abria caminho por entre uma várzea que se tornava cada vez mais pantanosa. Acto contínuo, tínhamos os sapatos enterrados em lodo até o tornozelo. E a torre erguia-se à nossa frente envolta em vegetação. O velhote caminhava descalço pela lama. Nós seguíamos.

...como um tesouro escondido...

…como um tesouro escondido…

Reparem: eis uma casa-torre de pelo menos três pisos, com a alvenaria em bom estado até à linha do telhado, a uns 12 metros de altura. As marcas de barrotes em madeira, bocados de telha ainda visíveis nas linhas de cumeeira, molduras em pedra de basalto a enquadrar uma porta e janelas. Tudo a reluzir – porque as ruínas reluzem sem se ver – por entre a vegetação deste fim-de-monção indiano. O velhote olha para nós com ar curioso…diz para termos cuidado com as cobras no interior do recinto. Fotografámos freneticamente. Olhámos para a bússola. Tirámos as medidas do perímetro edificado. O dia está ganho. Aqui temos a casa-torre em todo o seu esplendor.

Do Tombo de Damão: “A Aldea Asanaguão foi aforada a Pero Estaço pello conde do Redondo [Francisco Coutinho, gov. 1561-1564] viso rei em duas vidas em satisfação dos carguos de tabalião e escrivão d’ante o ouvidor e feitor da Fazenda da cidade de Damão. […] E andara em huma só peçoa com obriguação de viver com molher e caza em Damão e ter sempre huum cavallo arabio a sua custa pera com elle servir quando comprir sem vençer soldo, moradia nem mantimento […] per carta feita em nove d’Abril de sesenta e tres. […] O dito Pero Estaço vendeo esta aldea a Adrião Vicente […] e o viso rei Dom Antonio [de Noronha] lhe passou carta em vinte seis de Fevereiro de setenta e tres […] Dona Filipa da Gama molher que foy de Adryão Vicente posuidora da aldea […] na derradeira vida das duas que tinha o dito seu marido […] pedio ao meo viso rey [Aires de Saldanha, gov. 1600-1605] lhe fizesse merçe de mais duas vidas da dita aldea […] aprezentando o treslado do aforamento […] e asy o testamento que por seu falecimento fes o dito Adryão Vicente, feito em dezanove dias do mes d’Outubro ano de quinhentos noventa e oito na tanadarya de Tarapor, por Afonço Martins tabelliam publico das notas […] declaro que conforme elles […] deve paguar mais a quarta parte do foro declarado no aforamento de Adryão Vicente, que são […] ao todo […] seisçentios sesenta he sete pardaos d’ouro e hum mamude […] Em Goa, a vinte hum de Fevereiro de 601.”

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Base em Manorá

Á excepção de uma mão cheia de interrupções, a pragana de Manorá e suas trinta e seis aldeias pertenceram ao Estado da Índia entre 1556 e 1738. Terá sido nas primeiras quatro décadas de soberania portuguesa que se edificaram a maior das casas-torre cujas ruínas ainda se vêm espalhadas pela circunscrição. Mas para encontrá-las não basta ter fé…é necessário preparação e sobretudo alguém que fale a língua local  – o marata – e que compreenda o tipo de estrutura que se procura. Essa pessoa é o arquitecto Saurabh Malpani, companheiro de várias viagens desde que o conheci no Porto, há mais de uma década, quando veio fazer a sua prova final na FAUP. Saurabh é daquelas pessoas que tem amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo – amigos a sério – e que faz mais amigos com uma facilidade desconcertante. Durante a nossa viagem pela antiga Província do Norte, nunca me deixou de surpreender a prontidão com que as pessoas acederam aos seus pedidos de informação, várias vezes entrando no nosso carro e levando-nos pessoalmente aos sítios das ruínas.

Casa-torre Khamloli (Camborly)

Casa-torre Khamloli (Camborly)

A Província do Norte é o território por excelência das casas-torre de origem portuguesa. Não restam dúvidas. Permanece por esclarecer porque é que nas regiões de Bardez e Salcete de Goa, parte do Estado da Índia também a partir de meados de Quinhentos, não se edificaram redes de casas-torre como ocorreu nos distritos de Baçaim e Damão da Província do Norte. Uma das chaves para esclarecer esta questão poderá radicar no facto de o sistema de prazos ou enfiteuse ter sido primeiramente aplicado no território da Província do Norte e apenas  aplicado em Goa mais tarde, especialemente a partir da anexação da ilha de Corjuém, em 1706. Também é necessário comrpeender que, ao contrário de muitas das aldeias a norte, as aldeias das Velhas Conquistas em Goa prosperaram durante os séculos XVIII e XIX, altura em que terá existido uma renovação generalizada das grandes habitções rurais do território, associada à afirmação da aristocracia goesa.

Casa-torre de Dahinsar (Daisar)

Casa-torre de Dahinsar (Daisar)

Assim, na Província do Norte, estas estruturas não terão sido reaproveitadas, na maior parte dos casos, após o período português. A necessidade de providenciar uma casa-forte para guardar o excendente agrícola da aldeia e a para albergar o seu foreiro deixou de ser premente durante o período marata (1738-1818) e menos ainda durante o período britânico (1818-1947). As casas-torre ficaram assim em ruínas, embora talvez aproveitadas para arrecadar alfaiais ou mateirais, sendo que hoje em dia, muitas retém a função de serem casa-de-banho públicas em aldeias sem acesso a saneamento básico.

Casa-torre de Dhuktan (Ducatana)

Casa-torre de Dhuktan (Ducatana)

Dentre os vários prodígios que o Saurabh orbrou durante esta viagem de quatro dias pela antiga Província do Norte (3 a 8 de Setembro), o meu favorito é a arte de perguntar direcções sem parar o carro a pessoas em motas que vêm na direcção contrária. Quem já viajou pelo interior da Índia sabe que os mapas e os sinais são em grande parte inúteis ou inexistentes. É preciso peguntar várias vezes, por vezes em cada encruzilhada ou entroncamento. Geralmente, a resposta é “sempre em frente” até que alguém diz para voltar para trás e virar no cruzamento anterior. Assim, ao mesmo tempo que conduz, Saurabh abranda ao ver uma mota a avançar em direcção contrária. Com um sinal decidido, adverte o motoqueiro para este abrandar ao cruzar-se com o carro. Saurabh lança então um berro com o nome do sítio para onde vamos. E o outro responde com o “sempre em frente” sem parar. Ou então não, e o processo repete-se até chegarmos ao nosso destino. E assim se vão encontrando e documentando os vestígios de casas-torre na Índia.

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Seitavaca (Seethawaka) e a “famosa retirada” de Jerónimo de Azevedo de 1603

Escavacao em Seethawaka

Escavacao em Seethawaka

Quem já folheou pela história da presença portuguesa em Sri-Lanka, lembra-se certamente do nome Seitavaca, capital do reino homónimo, hoje em dia conhecida como Seethawaka. Foi essa a capital de Rajasinha I, monarca cingalês que durante a década de 1580 controlou grande parte da ilha, à excepção da zona ocupada pelos portugueses e pelo reino de Jaffna, na região norte. Já após o apogeu do reino de Seitavaca, o reino de Kandy reconstituido em torno de Vimaladharmasurya, infligiu uma pesada derrota aos portugueses comandados por Pero Lopes de Sousa, primeiro capitão-geral “da conquista de Ceilão”. A derrota de Danture, em 1594, talvez a pior do Estado da Índia face a forças asiáticas até a queda da Província do Norte em 1739, não foi suficiente para os portugueses desistirem do intento da conquista de Kandy. O sucessor de Pero Lopes de Sousa – que morreu três dias após a fatídica batalha -, foi Jerónimo de Azevedo, que chegou a Colombo no Natal de 1594. Decidido a continuar a guerra, a nova tentativa de invasão conduziu primeiro à edificação de uma rede de fortificações ao longo da fronteira ocidental de Kandy, que equivalia à divisão entre os planaltos do centro da ilha e as zonas costeiras.

Local da tranqueira de Menikkadawara

Local da tranqueira de Menikkadawara

A partir de Menikkadawara, Jerónimo de Azevedo procurou assegurar o controlo sobre o desfiladeiro de Balana, considerado a “chave” para a entrada nas terras de Kandy. Balana foi efectivamente tomada sem batalha em Fevereiro de 1603, mas volvidos cinco dias, os lascarins cingaleses afectos à causa portuguesa desertaram em bloco e Jerónimo de Azevedo viu-se obrigado a fazer uma marcha forçada de regresso a Colombo. Essa foi a “famosa retirada” de Azevedo em Ceilão, famosa pois o capitão-geral conseguiu evitar a derrota completa dos portugueses à semelhança do que ocorrera em 1594, salvando a maior parte das tropas durante quinze dias de caminhadas sob ataques das forças de Kandy e através de zonas anexadas ao extinto reino de Kotte, que então se levantaram em revolta aberta.

Menikkadawara (Manicavare) num codice de 1630

Menikkadawara (Manicavare) num codice de 1630

A retirada fez-se por via de Ganetenna, Attapittyia, Menikkadawara, Ruwanwella, Seethawaka e Malwana. A morte de Vimaladharmasurya em 1604 e reenforços de Goa permitiram a Jerónimo de Azevedo recuperar a maior parte das fortificações raianas, mas com a chegada dos holandeses, a presença portuguesa na ilha esmeralda ficava com os dias contados e os planos de conquista foram abandonados. 

Subida a sitio da fortificacao portuguesa em Seethawaka

Subida ao sitio da fortificacao portuguesa em Seethawaka

Durante a minha estadia em Sri-Lanka, fui duas vezes a Seethawaka e uma a Menikkadawara. Os vestígios das fortificações portuguesas em ambos os locais foram identificadas pelo arqueólogo H. Bell, primeiro comissário do Archaeological Survey of Ceylon, instituido em 1892. Bell começou o seu trabalho de prospecção e escavação precisamente na zona das Sete Corlas, ou distrito de Kagalle, onde se situavam a maior parte das fortificações de origem portuguesa pertencentes ao sistema raiano com Kandy. Actualmente, o Arcaheological Survey of Sri-Lanka está a escavar a fortificacão de origem holandesa em Seethawaka, provavelmente construida no local do antigo palácio de Rajasinha I. Mas os – ténues – vestigios da fortificação de origem portuguesa situam-se mais a sul, sobre uma elevação que domina de forma dramática toda a paisagem em redor.

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Blitzforschung em Colombo

Arquivo Nacional

Arquivo Nacional

Relativamente à história da presença portuguesa, a situação do Sri-Lanka é diametralmente oposta à da antiga Província do Norte: existe um considerável conjunto de estudos e uma relativa abundância de fontes – tanto escritas como de imagens – mas pouquíssimos vestígios materiais. Prospecções e escavações arqueológicas poderão um dia revelar outras dimensões do património de origem portuguesa na ilha. Mas para já, e para além daquilo que já foi escrito no HPIP  e das publicações de Tikri Abeysinghe e de Zóltan Biedermann, muito pouco se poderá acresentar para além de sítios onde algumas escombros entre a vegetação e relatos de achados de algumas inscrições poderão indicar a existência de antigas estruturas de origem portuguesa.

Museu Nacional

Museu Nacional

Não foram localizados quaisquer vestígios de casas-torre, embora algumas imagens em códices antigos aparentam assinalar a sua existência. Penso que a terem de facto exisitido casas-torre de fundação particular, terão sido edificadas nas aldeias costeiras na faixa entre Negumbo e Galle, na zona sudoeste da ilha. Foi esta a zona onde também incidiu a presença holandesa e britânica anterior à ocupação colonial de toda a ilha. Naturalmente, foram edificadas várias torres de origem militar, tanto em madeira como em pedra e cal e enquadradas dentro de fortifiações maiores. Mas destas torres também não restam quaisquer vestígios visíveis. São estas as conclusões preliminares de três dias de blitzforshung em Colombo, no National Archives, na biblioteca do National Museum, e na Public Library.

Retrete chique, Museu Nacional

Retrete chique, Museu Nacional

A minha base em Colombo é um quarto no American Institute for Sri Lankan Studies, na zona de Colombo 05. Graças à hospitalidade do Sr. Rodrigo, com os seus joviais 95 anos, e da directora Mrs. Unamboowe, a estadia nesta zona central da cidade torna-se muito agradável, especialmente por poder circular a pé para quase todos os sítios para onde me desloco. O pequeno luxo de ter uma cozinha e um escritório para trabalhar, tudo por cerca de dez euros, ajuda a reequilibrar o orçamento da viagem.

Emblema cingalês em marfim, Museu Nacional

Emblema cingalês em marfim, Museu Nacional

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O(s) voo(s) perdido(s) e a festa dos arquitectos em Singapura

Enquanto planeava as etapas desta viagem, constatei que o regresso a Singapura após a minha estadia em Timor ficava mais barato via Darwin do que voltar por Bali e pagar os 20 euros mais 25 dólares da taxa do aeroporto. Adquirido o voo, li que os cidadãos da UE não precisavam de visto de trânsito para a Austrália caso ficassem apenas oito horas ou menos entre voos em aeroportos daquele país. Fiz mal as contas, nessa altura. E paguei as favas. Por 40 minutos, o meu tempo de espera em Darwin ultrapassava as oito horas – e não me deixaram embarcar. Felizmente, com o apoio crucial do Filipe, consegui comprar voos para Bali (Merpati) e daí para Singapura (Tiger/Mandala) para o mesmo dia, embora o de Díli-Bali fosse em business class. Assim, pela primeira vez na vida, perdi um avião (não por atraso, note-se) e viajei em primeira, no lugar 1A. Sendo que a business class da Merpati não tem muito mais para além do espaço e conforto adicionais do assento e um chocolatinho no fim da refeição. Um rombo enorme no orçamento e um pó aos australianos, assim parti de Timor-leste no dia 23 de Agosto.

A festa em Singapura no dia 24 era num terraço na cobertura de um pequeno edifício numa das avenidas principais. Nesse apartamento moram o Hermano e o Antonio, dois arquitectos italianos. Antes de subirmos, comprámos umas cervejas na pequena loja mesmo por baixo do apartamento. Sobre a mesa havia bastante vinho e outras bebidas, sendo que a unica coisa que não se consegui improvisar foi gelo. Foi uma festa bonita, com pessoas dos quatro cantos do mundo e boa música. Um dos pontos altos da noite foi quando o Fernando Velho apresentou-me um arquitecto indiano, que eu imediatamente advinhei ser de Chennai, para surpresa de ambos, que ficaram a falar nesse feito noite dentro. Outro ponto alto foi conhecer o Chris, colega do Fernando desde os tempos da Michigan University. E finalmente, poder dançar um bocado ao ar livre. Até a polícia chegar à porta, o que obrigou a baixar o volume. Quando voltámos ao poiso, a pé pela madrugada de Singapura, perguntei ao Fernando se não planeava regressar a Goa e montar um atelier. A resposta: “maybe in one year”.

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Duas noites em Maliana e nos “Distritos”

A paisagem do interior da Timor aparenta ser, neste mês de Agosto, como um país tropical que não consegue desabrochar. Aqui e ali espreitam algumas bananeiras e palmeiras, mas o mato que cobre a maior parte das encostas dá-lhes um aspecto desolador e árido. Durante o início desta segunda viagem a partir de Díli, entre os dias 20 e 22 de Agosto, sigo novamente a costa norte, desta vez para ocidente, até atingir a fronteira indonésia. E só aí entro para o interior, guinando para sul em Batugadé.

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Fortificação de Batugadé

Não será fácil imaginar a vida em algumas aldeias do interior timorense para os europeus ou “ocidentais” de hoje, e muito menos para aqueles de um século ou mesmo meio século atrás. Seria apenas natural que muitos funcionários ou militares vindos de Portugal desenvolvessem algum tipo de atitudes mais “ressabiadas” por estarem destacados nos antípodas de Portugal, longe, muito longe da pátria. Poucos seriam os que tivessem eleito Timor por opção, imagino. Os administradores dos onze concelhos ou circunscrições e sub-administradores das várias subdivisões viviam nas residências ou “postos” da administração, geralmente situadas em sítios que dominam a paisagem em redor, por vezes de grande impacte cénico. Em alguns destes sítios terão existido pequenas fortificações ou tranqueiras do período pré-1894, altura em que o governador Celestino de Castro desenvolveu de forma sistemática as estruturas indispensáveis para a aplicação da soberania portuguesa sobre o território, incluindo as linhas telefónicas a unir os onze postos principais de cada circunscrição a Díli.

Memorial a Celestino de Castro em Fatu-Bessi

Memorial a Celestino de Castro em Fatu-Bessi

A arquitectura destas residências do quadro da administração reflecte a escassez de meios económicos de Portugal em finais de oitocentos, comparativamente com as outras nações europeias colonialistas. Não apenas pela escala modesta da sua arquitectura em geral, mas também pelo uso de materiais e soluções locais em contraste com o emprego limitado e padronizado de materiais construtivos vindos de fora de Timor, as casas da administração do período 1894-1942 constituem um exemplo arquitectónico típico da subalternidade do quarto império português.

Monte Leilaco

Monte Leilaco

Durante esta viagem pelo interior, passando por Aipelo, Liuquiçá e Maubara, ainda na costa norte, passo por Balibó e depois fico uma primeira noite na pousada de Maliana. Sede do concelho de Bobonaro, Maliana está implantada num vale dominado pelo incrível monte Leilaco, irrompendo contra o céu timorense com uma majestade inusitada.

Nas ruínas do Posto da Administração de Cailaco

Nas ruínas do Posto da Administração de Cailaco

Pelas onze horas da manhã do dia 21 de Agosto de 2013, começa a escalada ao “antigo posto” de Cailaco, cerca de 10km a sul de Maliana. Cailaco é uma das subdivisões do concelho de Bobonaro, e durante o período português, a sua sede teve dois locais distintos. Desde a independência de Timor-leste, existe um terceiro edifício da administração, onde encontramos o actual sub-administrador, Afonso Moniz. Com ele e outro funcionário e ainda o Sr. Cândido, fazemos o percurso de cerca de uma hora de jipe e mais uma hora a pé, sob o duro sol de Agosto, pela vertente sul e oeste do monte Cailaco, até atingir as ruínas do “posto antigo” da administração. O monte ou “rocha” de Cailaco ficou célebre na história da presença portuguesa em Timor pela batalha que nele ocorreu em 1726, e especialmente pela espectacular representação dessa mesma batalha entre o governador português e uma aliança de liurais timorenses que resistiam à soberania colonial – embora já convertidos ao cristianismo.

Pormenor da batalha de Cailaco, 1726

As ruínas desta residência da administração, que data seguramente do século XX dado o uso de betão armado em certos elementos, são pouco conhecidas, mesmo pelos técnicos da Secretaria de Estado da Arte e Cultura, que está encarregue na conservação do património arquitectónico e arqueológico de Timor-leste, preparando com urgência as bases legais para a classificação desses elementos patrimoniais. Por isso mesmo, a documentação fotográfica do posto de Cailaco, cedida à directora geral da Secretaria, Sra. Cecília Belo de Assis, reveste-se de alguma importância no âmbito do processo de conservação do património de origem portuguesa em Timor-leste. O sr. Cândido é o morotista da Sra. Assis e sem a sua condução experiente e apoio na localização dos pontos a visitar no roteiro, esta viagem teria sido praticamente impossível.

Posto da Administração de Cailaco

Posto da Administração de Cailaco

Chegámos os quatro ao sítio no pico do calor, e tanto eu como o sub-administador revelámos sinais de algum cansaço. Junto às ruínas residem ainda dois idóneos funcionários que guardam o recinto. As ruínas distribuem-se por três plataformas sobre uma elevação a oeste da rocha de Cailaco, erguidas com muros de contenção e aproveitando algumas zonas escarpadas de altura considerável. A organização interna da residência abrange duas zonas bem demarcadas, a dos serviços domésticos e a do funcionamento oficial. Ainda resiste no local a antiga banheira da casa de banho principal. Em vários locais notam-se revestimentos de cerâmica e apenas na chaminé e forno a lenha da cozinha aparenta ter sido usado o tijolo.

Guarda em Cailaco

Guarda em Cailaco

No dia 22 de Agosto, o regresso a Díli fez-se via as Termas de Marobo, Bobonaro, Atsabe, Ermera, Fatu-bessi e Railaco.

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Díli-Jaco-Díli

Timor, ou “Oriente” em malaio, é hoje-em-dia residência para pelo menos 1000 cidadãos portugueses, muito provavelmente a maior população de portugueses na ilha desde que chegou o primeiro em 1514 ou 1515. A comunidade portuguesa por vezes ajuda na lenta reconstrução de uma nação com problemas infraestruturais, no sentido mais lato da palavra. O Filipe Ferreira é um deles, mas também ajuda a orientar-me pela Ilha, desde que cá meti o pé, na manhã do dia 15 de Agosto.

P1040188

Depois de uma primeira volta por Díli, no facilmente reconhecível jipe amarelo do Filipe, resolvi contactar o Flávio Miranda, outro arquitecto português, mas com ascendência sino-timorense-holandesa. E com ele e a Silvya, a namorada búlgara, meti-me à estrada para o ponto mais oriental de todo o meu roteiro: a ilha de Jaco. Pelo caminho, naturalmente, sempre a parar em povoações onde existem vestígios de casas-torre, como Manatuto, Vemasse, Lautém e Lalea.

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As ruínas da casa do administrador de Manatuto localizam-se numa colina que se domina toda a paisagem envolvente, sendo que fica relativamente perto da costa. Enquanto eu e o Flávio fotografávamos o local, sonhávamos já em voz alta com um projecto de reabilitação para a estrutura – uma pousada ou outra função. Enquanto que a casa propriamente dita parecia datar do século vinte, uma série de indícios no seu perímetro apontam para uma primeira ocupação mais precoce, algo que poderá ser eventualmente comprovado na documentação e cartografia.

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A ilha de Jaco é sagrada para a comunidade local e não é permitido ficar a dormir na ilha, que ocupa cerca de 10 km2. Quando atravessávmos de barco, nós os três mais os dois marinheiros, sabíamos que estávamos a ir para uma ilha e um conjunto de praias sem ninguém, pois confirmámos essa informação duas ou três vezes. O sítio, passe o lugar-comum, é paradisíaco. Nunca estive numa praia assim e tão cedo não a esquecerei….nem o escaldão à moda antiga que apanhei. Á hora do almoço, os pescadores vieram-nos trazer peixe da zona, com arroz e legumes. Depois fizemos uma sesta e deambulámos pela ilha. Ao final da tarde arrancámos de volta para Baucau, onde pernoitámos.

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De Baucau, partimos cedinho para Díli, não fosse o Flávio chegar atrasado para a sua reunão com o Primeiro Ministro. E à tarde, foi a minha vez de reunir com a Doutora Cecília Assis, directora da Secretaria de Estado de Arte e Cultura, para encetar a logísitca da viagem dos três dias seguintes, pelo interior central da ilha.

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Singapura 6:45 am

Um tigre asiático domesticado no coração da Ásia, Singapura acorda para o mundo. No metro, as pessoas concentram-se nos emails que lêm nos seus gadgets. Este dia será vencido, como os anteriores, graças a camisas impecavelmente engomadas e uma (pro)eficiência profissional que arrasam a concorrência. Respira-se segurança, tranquilidade, futuro. A minha pequena mala e mochila são revistadas por uma polícia à entrada para a estação do metro. Fernando Velho, goês e arquitecto que me orienta nestas zonas, tem poucos conselhos para me dar sobre esta cidade/país. Aparentemente, tudo flui suavemente e as regras, quando enforçadas – que é como quem diz, quase sempre -, são feitas de forma justa. E esta pequena estadia é apenas para dormir umas horas numa cama e apanhar o voo para Bali. Assim, do aeroporto para McNair Road e de McNair Road para o aeroporto, vi pela primeira vez Singapura – ponto exacto onde o Índico encontra o Pacífico e segundo maior empório marítimo do globo.

Singapura, paisagem, 6:45 am

Singapura, paisagem, 6:45 am

Singapura, paisagem interna, 6:45 am.

Singapura, paisagem interna, 6:45 am.

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PARTIDA !

Começou a viagem para Oriente:

Lisboa-Dublin-Abu Dhabi-Singapura.

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O que são casas-torre?

Poucas imagens estão enraizadas no subconsciente colectivo europeu como a da torre de menagem ou a casa-torre medieval. A sua forma básica – entendida não apenas enquanto uma relação proporcional entre a altura e a base da volumetria mas também pelo modo como se sobreleva na construção ou paisagem envolvente – permanece hoje como um símbolo potente de poder e de centralidade no campo do habitat humano. A casa-torre, ou domus-fortis, disseminou-se pelo território de Portugal continental sobretudo nos séculos XIII e XIV,  mas as suas origens recuam até ao período tardo-romano e suevo. Nessa época, houve uma intensa actividade construtiva de carácter defensivo[1], maturando na robusta torre de menagem dos castelos do alvorecer da nacionalidade. Durante esse processo e o de “Reconquista” Ibérica, a presença da torre tornou-se num marco fundamental na paisagem.

A domus-fortis portuguesa inspira-se ou copia a torre de menagem. Conjugando as preocupações de segurança e as necessidades essenciais do habitar, a casa-torre reflecte também as aspirações de “linhagens de segundo plano” da fidalguia nacional, que tinham na terratenência o seu principal veículo de afirmação social[2]. A casa-torre é assim o símbolo da apropriação de um determinado território, dominando-o e observando-o, expressando a vontade de progressão social e auto-suficiência do seu promotor – retórica que culmina nas ameias a coroar a edificação, elemento tectónico que carecia de expressa autorização régia[3]. Enquanto que a evolução das casas-torre em Portugal continental é relativamente bem conhecida, sabe-se pouco acerca da sua edificação e evolução nos territórios da Expansão ultramarina.

No território da antiga Província do Norte do Estado da Índia, foram documentadas fotograficamente cerca de vinte e cinco ruínas de casas-torres. Devido a constrangimentos no decurso do trabalho de doutoramento já mencionado, ficaram por documentar vários outros exemplos entretanto conhecidos. Essas casas-torre formavam a primeira linha de defesa de um território constantemente ameaçado por aquilo que actualmente poderíamos descrever de actividades de guerrilha. A partir de passagens nas fontes documentais e de alguns exemplos registados, sabe-se que este tipo de edificação se estendeu às restantes parcelas do Estado da Índia com profundidade territorial,  especialmente durante os primeiros tempos de ocupação colonial, nos séculos XVI e XVII. Pretende-se agora averiguar a disseminação da casa-torre ou casa-agrícola nas zonas rurais dos territórios de Timor-leste, Sri Lanka e Goa.

Estes dispositivos revestem-se de destacado interesse do ponto de vista da História da Arquitetura, visto que representam um processo de transposição de modelos enraizados em Portugal para um contexto muito distinto, onde viriam a evoluir de modo autónomo, influenciados pelas condicionantes locais. Assim, ao invés das suas congéneres em Portugal, que foram perdendo a sua vocação militar, as casas-torre da Província do Norte, por exemplo, evoluíram amiúde para dispositivos defensivos mais robustos e por vezes adaptados às novas necessidades da pirobalística, raramente abdicando da sua função castrense. Para além do seu papel fundacional no ordenamento daquele território, um exemplo do funcionamento em rede das casas-torre enquanto dispositivo defensivo ficou notavelmente descrito por um capitão-geral da Província do Norte quando, no último quartel de Seiscentos, ordenou que ao longo da costa desde Damão até Baçaim, todos os foreiros tivessem nas suas “torres ou cazas as armas grandes como pessas e falcois ou camaras”, de modo a poderem “dar em rebate com a arma grande”, em caso de desembarque de inimigos, “atirando athé as Torres mais vezinhas de huma e outra parte” até estas lhe responderem, de modo a concentrarem na praia acometida “toda a gente das aldeas armada[4].

Através de processos comparáveis àquele de ocupação territorial na Província do Norte, tanto em Goa como no oeste do Sri-Lanka como ainda no leste da ilha de Timor, os portugueses e os seus descendentes tornaram-se proprietários rurais em territórios de fronteira, sujeitos a várias ameaças. Sobretudo no antigo Ceilão, o sistema de aforamentos de aldeias foi semelhante àquele que levou ao povoamento e cristianização do território da Província do Norte. Ambos os processos de ocupação colonial assentavam na existência de uma rede de foreiros portugueses e suas aldeias, sendo estas defendidas pelas ditas casas-torre ou casas-agrícolas. Mas também em Timor-leste, apesar da sua ocupação mais tardia e fragmentada, tornou-se indispensável pontuar o território com o dispositivo defensivo mais elementar e expedito: a torre, quer de madeira quer de materiais perenes. E também na zona das Velhas Conquistas em Goa existem ainda exemplos de casas rurais incorporando volumetrias que evocam a torre, permanecendo por averiguar de que modo as alterações e ampliações mais recentes poderão ter operado sobre uma rede de casas-torre ou casas senhoriais fortificadas.

Para além da vitalidade enquanto dispositivo defensivo, o estudo das casa-torre reveste-se também de um interesse acrescido pelo facto de abordar a história da habitação nos territórios do antigo Império Português. De facto, na esfera do Estado da Índia, a História de Arte e da Arquitetura, têm dado enfoque às estruturas de vocação religiosa ou às grandes fortificações. A habitação e as paisagens interiores têm merecido escassa atenção, para além do estudo de algumas apalaçadas de Goa, edificadas nos séculos XVIII e XIX. Permanecem por estudar os processos pelos quais os portugueses que possuíam propriedades e casas rurais se adaptavam aos contextos asiáticos e de modo se gerou e consolidou uma sociedade indo-portuguesa, com os seus hábitos, hierarquias e cenários característicos.


[1] BARROCA, Mário Jorge, Torres, casas-torres ou casas-fortes: a concepção do espaço de habitação da pequena e média nobreza na Baixa Idade Média (sécs. XII-XV), sep. de História das Ideias, vol. 19, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1998.

[2] BARROCA, Mário Jorge, Torres, casas-torres ou casas-fortes: a concepção do espaço de habitação da pequena e média nobreza na Baixa Idade Média (sécs. XII-XV), sep. de História das Ideias, vol. 19, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1998, pp. 51-53.

[3] BARROCA, Mário Jorge, Torres, casas-torres ou casas-fortes: a concepção do espaço de habitação da pequena e média nobreza na Baixa Idade Média (sécs. XII-XV), sep. de História das Ideias, vol. 19, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1998, pp. 59-62.

[4] Carta do capitão-geral da PN Manuel Lobo da Silveira datada de 16 de Outubro de 1677, Série Azul, Ms. 58, fls. 309v-310v, Biblioteca da Academia de Ciências de Lisboa.

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