A história do “achamento” desta estrutura arqueológica é quase tão interessante como a própria ruína. Trata-se tão somente do melhor e mais valioso exemplo de uma casa-torre na Índia e muito provavelmente em todo o Oriente onde subsistem marcas da presença portuguesa. Partimos da nossa base em Manorá a 4 de Setembro de 2013 apenas sabendo que algures na aldeia ou perto da aldeia de Asangaon existiam umas ruínas de provável origem portuguesa. A nossa experiência – especialmente a do Saurabh – informava-nos que era quase sempre mais produtivo perguntar informações às pessoas mais velhas em cada aldeia ao longo do nosso roteiro. E assim fez Saurabh, mal nos apercebemos que estávamos na zona central da aldeia de Asangaon. Perguntou do volante em marata a uma senhora de idade que hesitou em responder. Mas o Saurabh completou a pergunta com uma pequena achega: “Somos estudantes de história de Pune e estamos a fazer um trabalho para a universidade”. Bastou para desencadear um reacção.
A mulher confirmou a existência de uma ruína e chamou outra pessoa de idade. Emergiu então um senhor ainda mais velho e com óculos de fundo-de-garrafa. Saurabh voltou à carga: “ruínas pequeninas e modestas de uma estrutura quadrada…” O homem põs um ar pensativo e olhou melhor para nós e para o nosso carro. Hesitou. A mulher disee-lhe então qualquer coisa e o homem acenou, entrou em casa e saiu novamente com um boné enfiado na careca. “Chaló”, Vamos! Pelo caminho, que nos conduzia para fora da aldeia e para uma zona de várzeas, Saurabh disse-me baixinho em inglês: “Estamos com sorte, as ruínas são na propriedade dele”.
A certa altura virámos e entrámos num valado com zonas alagadas de ambos os lados de um estradão de terra. Ao fundo no horizonte a central termo-nuclear de Tarapur. Uma silhueta, alta e possante, começou a se desenhar do nosso lado direito, por entre o verde luxuriante da monção. Saímos do carro a correr. Não consegui conter as exclamações e interjeições: “este é o melhor exemplo até agora! Sorte grande, Saurabh!”. Saurabh ria-se e abria caminho por entre uma várzea que se tornava cada vez mais pantanosa. Acto contínuo, tínhamos os sapatos enterrados em lodo até o tornozelo. E a torre erguia-se à nossa frente envolta em vegetação. O velhote caminhava descalço pela lama. Nós seguíamos.
Reparem: eis uma casa-torre de pelo menos três pisos, com a alvenaria em bom estado até à linha do telhado, a uns 12 metros de altura. As marcas de barrotes em madeira, bocados de telha ainda visíveis nas linhas de cumeeira, molduras em pedra de basalto a enquadrar uma porta e janelas. Tudo a reluzir – porque as ruínas reluzem sem se ver – por entre a vegetação deste fim-de-monção indiano. O velhote olha para nós com ar curioso…diz para termos cuidado com as cobras no interior do recinto. Fotografámos freneticamente. Olhámos para a bússola. Tirámos as medidas do perímetro edificado. O dia está ganho. Aqui temos a casa-torre em todo o seu esplendor.
Do Tombo de Damão: “A Aldea Asanaguão foi aforada a Pero Estaço pello conde do Redondo [Francisco Coutinho, gov. 1561-1564] viso rei em duas vidas em satisfação dos carguos de tabalião e escrivão d’ante o ouvidor e feitor da Fazenda da cidade de Damão. […] E andara em huma só peçoa com obriguação de viver com molher e caza em Damão e ter sempre huum cavallo arabio a sua custa pera com elle servir quando comprir sem vençer soldo, moradia nem mantimento […] per carta feita em nove d’Abril de sesenta e tres. […] O dito Pero Estaço vendeo esta aldea a Adrião Vicente […] e o viso rei Dom Antonio [de Noronha] lhe passou carta em vinte seis de Fevereiro de setenta e tres […] Dona Filipa da Gama molher que foy de Adryão Vicente posuidora da aldea […] na derradeira vida das duas que tinha o dito seu marido […] pedio ao meo viso rey [Aires de Saldanha, gov. 1600-1605] lhe fizesse merçe de mais duas vidas da dita aldea […] aprezentando o treslado do aforamento […] e asy o testamento que por seu falecimento fes o dito Adryão Vicente, feito em dezanove dias do mes d’Outubro ano de quinhentos noventa e oito na tanadarya de Tarapor, por Afonço Martins tabelliam publico das notas […] declaro que conforme elles […] deve paguar mais a quarta parte do foro declarado no aforamento de Adryão Vicente, que são […] ao todo […] seisçentios sesenta he sete pardaos d’ouro e hum mamude […] Em Goa, a vinte hum de Fevereiro de 601.”


























