O que são casas-torre?

Poucas imagens estão enraizadas no subconsciente colectivo europeu como a da torre de menagem ou a casa-torre medieval. A sua forma básica – entendida não apenas enquanto uma relação proporcional entre a altura e a base da volumetria mas também pelo modo como se sobreleva na construção ou paisagem envolvente – permanece hoje como um símbolo potente de poder e de centralidade no campo do habitat humano. A casa-torre, ou domus-fortis, disseminou-se pelo território de Portugal continental sobretudo nos séculos XIII e XIV,  mas as suas origens recuam até ao período tardo-romano e suevo. Nessa época, houve uma intensa actividade construtiva de carácter defensivo[1], maturando na robusta torre de menagem dos castelos do alvorecer da nacionalidade. Durante esse processo e o de “Reconquista” Ibérica, a presença da torre tornou-se num marco fundamental na paisagem.

A domus-fortis portuguesa inspira-se ou copia a torre de menagem. Conjugando as preocupações de segurança e as necessidades essenciais do habitar, a casa-torre reflecte também as aspirações de “linhagens de segundo plano” da fidalguia nacional, que tinham na terratenência o seu principal veículo de afirmação social[2]. A casa-torre é assim o símbolo da apropriação de um determinado território, dominando-o e observando-o, expressando a vontade de progressão social e auto-suficiência do seu promotor – retórica que culmina nas ameias a coroar a edificação, elemento tectónico que carecia de expressa autorização régia[3]. Enquanto que a evolução das casas-torre em Portugal continental é relativamente bem conhecida, sabe-se pouco acerca da sua edificação e evolução nos territórios da Expansão ultramarina.

No território da antiga Província do Norte do Estado da Índia, foram documentadas fotograficamente cerca de vinte e cinco ruínas de casas-torres. Devido a constrangimentos no decurso do trabalho de doutoramento já mencionado, ficaram por documentar vários outros exemplos entretanto conhecidos. Essas casas-torre formavam a primeira linha de defesa de um território constantemente ameaçado por aquilo que actualmente poderíamos descrever de actividades de guerrilha. A partir de passagens nas fontes documentais e de alguns exemplos registados, sabe-se que este tipo de edificação se estendeu às restantes parcelas do Estado da Índia com profundidade territorial,  especialmente durante os primeiros tempos de ocupação colonial, nos séculos XVI e XVII. Pretende-se agora averiguar a disseminação da casa-torre ou casa-agrícola nas zonas rurais dos territórios de Timor-leste, Sri Lanka e Goa.

Estes dispositivos revestem-se de destacado interesse do ponto de vista da História da Arquitetura, visto que representam um processo de transposição de modelos enraizados em Portugal para um contexto muito distinto, onde viriam a evoluir de modo autónomo, influenciados pelas condicionantes locais. Assim, ao invés das suas congéneres em Portugal, que foram perdendo a sua vocação militar, as casas-torre da Província do Norte, por exemplo, evoluíram amiúde para dispositivos defensivos mais robustos e por vezes adaptados às novas necessidades da pirobalística, raramente abdicando da sua função castrense. Para além do seu papel fundacional no ordenamento daquele território, um exemplo do funcionamento em rede das casas-torre enquanto dispositivo defensivo ficou notavelmente descrito por um capitão-geral da Província do Norte quando, no último quartel de Seiscentos, ordenou que ao longo da costa desde Damão até Baçaim, todos os foreiros tivessem nas suas “torres ou cazas as armas grandes como pessas e falcois ou camaras”, de modo a poderem “dar em rebate com a arma grande”, em caso de desembarque de inimigos, “atirando athé as Torres mais vezinhas de huma e outra parte” até estas lhe responderem, de modo a concentrarem na praia acometida “toda a gente das aldeas armada[4].

Através de processos comparáveis àquele de ocupação territorial na Província do Norte, tanto em Goa como no oeste do Sri-Lanka como ainda no leste da ilha de Timor, os portugueses e os seus descendentes tornaram-se proprietários rurais em territórios de fronteira, sujeitos a várias ameaças. Sobretudo no antigo Ceilão, o sistema de aforamentos de aldeias foi semelhante àquele que levou ao povoamento e cristianização do território da Província do Norte. Ambos os processos de ocupação colonial assentavam na existência de uma rede de foreiros portugueses e suas aldeias, sendo estas defendidas pelas ditas casas-torre ou casas-agrícolas. Mas também em Timor-leste, apesar da sua ocupação mais tardia e fragmentada, tornou-se indispensável pontuar o território com o dispositivo defensivo mais elementar e expedito: a torre, quer de madeira quer de materiais perenes. E também na zona das Velhas Conquistas em Goa existem ainda exemplos de casas rurais incorporando volumetrias que evocam a torre, permanecendo por averiguar de que modo as alterações e ampliações mais recentes poderão ter operado sobre uma rede de casas-torre ou casas senhoriais fortificadas.

Para além da vitalidade enquanto dispositivo defensivo, o estudo das casa-torre reveste-se também de um interesse acrescido pelo facto de abordar a história da habitação nos territórios do antigo Império Português. De facto, na esfera do Estado da Índia, a História de Arte e da Arquitetura, têm dado enfoque às estruturas de vocação religiosa ou às grandes fortificações. A habitação e as paisagens interiores têm merecido escassa atenção, para além do estudo de algumas apalaçadas de Goa, edificadas nos séculos XVIII e XIX. Permanecem por estudar os processos pelos quais os portugueses que possuíam propriedades e casas rurais se adaptavam aos contextos asiáticos e de modo se gerou e consolidou uma sociedade indo-portuguesa, com os seus hábitos, hierarquias e cenários característicos.


[1] BARROCA, Mário Jorge, Torres, casas-torres ou casas-fortes: a concepção do espaço de habitação da pequena e média nobreza na Baixa Idade Média (sécs. XII-XV), sep. de História das Ideias, vol. 19, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1998.

[2] BARROCA, Mário Jorge, Torres, casas-torres ou casas-fortes: a concepção do espaço de habitação da pequena e média nobreza na Baixa Idade Média (sécs. XII-XV), sep. de História das Ideias, vol. 19, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1998, pp. 51-53.

[3] BARROCA, Mário Jorge, Torres, casas-torres ou casas-fortes: a concepção do espaço de habitação da pequena e média nobreza na Baixa Idade Média (sécs. XII-XV), sep. de História das Ideias, vol. 19, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1998, pp. 59-62.

[4] Carta do capitão-geral da PN Manuel Lobo da Silveira datada de 16 de Outubro de 1677, Série Azul, Ms. 58, fls. 309v-310v, Biblioteca da Academia de Ciências de Lisboa.

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